O INGREDIENTE DO CONHECIMENTO

ESTÍMULO À LEITURA VERSUS LIVRO

I. A Leitura Infantil e o Desenvolvimento
da Criança

«Quem lê um livro nunca será a mesma pessoa». O enunciado acima é sintomático do valor da leitura para um indivíduo e, concomitantemente, para a sociedade que o acolhe.

Por conseguinte, o hábito de leitura deve ser um imperativo nas instituições, por isso a Imprensa Nacional-E.P. criou o BIIN (Boletim Informativo da Imprensa Nacional) para, entre outros esteios corporativos, incentivar a apetência aos livros pelos colaboradores. Ipso facto, o trimestre Abril-Junho, correspondente ao BIIN n.º 6, é rico em efemérides respeitantes à literatura, ingrediente vital para o desenvolvimento da Organização, a gráfica com mais de 100 anos de história de pioneirismo, sobretudo do jornalismo e da literatura, no qual publicou a primeira obra Espontaneidades da Minha Alma: Às Senhoras Africanas (1849), de José da Silva Maia Ferreira, e se posiciona com acções e medidas programáticas firmes na reedificação e revitalização da editora. Por conseguinte, o 2 de Abril marca o Dia Internacional da Literatura Infantil, ao passo que o 23 de Abril faz alusão ao Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, efemérides indissociavelmente ligadas, porquanto o ponto-focal é o livro, produto que o PCA Lando Teta e sua equipa elegeram como premissa de resgate ao longo do seu mandato de 5+5 anos, ou seja, o primeiro de 2017 a 2022 e o segundo, iniciado em Julho de 2023 com o término aprazado para Julho de 2028. Para esse desiderato investiu fortemente em equipamentos e no capital humano. O 2 de Abril faz alusão ao Dia Internacional do Livro Infantil, data escolhida pelo Conselho Internacional sobre Literatura para Jovens — IBBY (sigla em inglês para International Board on Books for Young People), em 1967, em homenagem a Hans Christian Andersen, escritor dinamarquês nascido nessa data no longínquo ano de 1805, considerado um dos principais nomes da literatura mundial, autor de obras consagradas, salientando «A pequena sereia», «A bonequinha preta», «A vida íntima de Laura», «As tranças de Bintou» e a «A roupa nova do imperador». Nesse dia, é celebrado tudo aquilo que envolve esse universo literário infantil: autores, leitores, obras, contos de fadas e fábulas. Por seu turno, em 1995, na 28.ª Conferência Geral da UNESCO — Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, foi proclamado o 23 de Abril como o dia consagrado ao livro e aos direitos do autor a fim de encorajar a leitura e promover a protecção dos direitos de autor. O estímulo à leitura é o principal ingrediente para o gosto pela literatura, tanto é que o pai da literatura infantil foi estimulado pelo seu pai, desde a infância, a ter contacto com obras literárias, assim como ter amor pelos livros que foram determinantes nas suas escolhas posteriores. Assim sendo, ao perder o progenitor, Andersen foi trabalhar em fábricas onde aproveitava para contar histórias e cantar para os colegas, tornando-se o ícone de contos de fadas amplamente referenciados, nomeadamente A rainha da neve, A pequena sereia, Os sapatos vermelhos, O soldadinho de chumbo, O patinho feio, A pequena vendedora de fósforos, A princesa e a ervilha e A Polegarzinha, que preencheram as prateleiras dos quartos de inúmeras crianças nesse mundo afora.

II. Literatura Infantil e os Contextos

A literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. Essa é a conclusão que peritos da Universidade Brasileira de Vale do Acaraú chegaram através de um estudo abrangente sobre a arte de escrever em que salta à vista dois parâmetros fundamentais, nomeadamente o contacto da criança desde cedo com o livro e as estratégias para desenvolver o hábito de leitura. Há muito que se diga sobre a literatura infantil no que tange às variantes, os contextos e os meandros dessa arte em que o conto de histórias é o sustentáculo de relevância incontestável. De acordo com a obra «A Importância da Leitura Infantil para o Desenvolvimento da Criança», os primeiros livros direccionados ao público infantil surgiram no século XVIII. Autores como La Fontaine e Charles Perrault escreviam as suas obras, enfocando principalmente os contos de fadas. Seguidamente, a literatura infantil foi galgando com passos firmes e relevantes no universo literário. Assim sendo, muitos autores foram surgindo, realçando Hans Christian Andersen (o Pai da Literatura Infantil Mundial), os irmãos Grimm e Monteiro Lobato (maior referência da Literatura Infantil Brasileira), imortalizados pela grandiosidade das suas obras. Nesse período, a Literatura Infantil funcionava como mercadoria, sobretudo para a sociedade aristocrática, mas anos depois transformou-se num produto de valor inquestionável, mercê da produção literária incentivada pelo processo de industrialização cujo escape foi o crescimento e a modernização das sociedades. Por conseguinte, a sociedade cresceu e modernizou-se por meio da industrialização, expandindo, assim, a produção de livros. A estreita relação Escola e Literatura foi um marco importante a destacar nesse período «pois para adquirir livros era preciso que as crianças dominassem a língua escrita e cabia a escola desenvolver esta capacidade». De acordo com Lajolo & Zilbermann, «a escola passa a habilitar as crianças para o consumo das obras impressas, servindo como intermediária entre a criança e a sociedade de consumo». Outrossim, «o livro tinha a finalidade única de educar, apresentar modelos, moldar a criança de acordo com as expectativas dos adultos», esquecendo-se de algo primordial, essencial para a criança que consistia em tornar a leitura como fonte de prazer, retratando a aventura pela aventura. Era, por conseguinte, um modelo versado na visão de mundo maniqueísta, calçada no interesse do sistema. A partir dos anos 70, a literatura infantil passa por uma revalorização, contribuída em grande parte pelas obras de Monteiro Lobato, no que se refere ao Brasil e com grande influência na lusofonia. Ao contrário do sistema anterior, esse privilegiava todos os caminhos da actividade humana, valorizando a aventura, o cotidiano, a família, a escola, o desporto, as brincadeiras, as minorias raciais, penetrando até no campo da política e suas implicações. Hoje a dimensão de literatura infantil é muito mais ampla e importante. Ela proporciona à criança um desenvolvimento emocional, social e cognitivo indiscutíveis. Segundo Abramovich (1997), quando as crianças ouvem histórias, passam a visualizar, de forma mais clara, sentimentos que têm em relação ao mundo. As histórias trabalham problemas existenciais típicos da infância, como medos, sentimentos de inveja e de carinho, curiosidade, dor, perda, além de ensinarem infinitos assuntos.

III. A Literatura Infantil Angolana
3.1. A Importância do Griot em Angola

Em Angola, tal como em África, a importância da oralidade é um marco de relevo que não deve ser descurado, de acordo com Gabriela Antunes, pedagoga e escritora infantil angolana, Coordenadora do Curso de Jornalismo do IMEL e professora das disciplinas de Arte e Literatura, Português e Inglês, de 1984 a 1998. A figura do Griot foi enaltecida pela pedagoga ao aludir, em diversas ocasiões, a importância de ouvir histórias que, além de proporcionar um convívio familiar saudável aos petizes, infundia na transmissão da oralidade, na qual um mais velho (pai, mãe, tio ou outro), mas sobretudo os avós, contavam-lhes as mais variadas histórias, com maior incidência sobre a vida dessas crianças. Aliás, a problemática da oralidade, defendida por Gabriela Antunes, foi referenciada pela investigadora brasileira Terezinha Taborda Moreira, na sua obra «Literatura Infantil Angolana e Construção da Identidade», quando enfatiza a respeito da temática da autora de «Kibala, o Rei Leão». Segundo ela, «Percebe-se que a oralidade constitui uma característica marcante nas histórias de Gabriela Antunes, que são contadas numa linguagem fluente, perpassada por um tom humorístico. Este, ao mesmo tempo que suaviza sua carga dramática, apresenta o distanciamento crítico da autora em relação aos temas que aborda, como também à forma pela qual os aborda». E ela prossegue o discurso acerca da ilustre contadora de histórias, «recusando os hábitos lógico-analíticos da escrita, Gabriela Antunes comunica-se através de uma linguagem actuante e viva que, dramatizada na escritura, mobiliza e movimenta um poder de realização que afecta todas as dimensões que compõem a práxis humana em seu devir existencial». A criança gosta muito de ouvir como foi que ela nasceu, ou factos que aconteceram com ela ou com pessoas da sua família. À medida que cresce, já é capaz de escolher a história que quer ouvir, ou a parte da história que mais lhe agrada. É nesta fase que as histórias vão tornando-se aos poucos mais extensas, mais detalhadas, passando a interagir com as histórias, acrescentando detalhes, personagens ou lembra de factos que passaram despercebidos pelo contador, essenciais para que a criança estabeleça a sua identidade e compreenda melhor as relações familiares. Outro facto relevante é o vínculo afectivo que se estabelece entre o contador das histórias e a criança. No que tange às características dos livros para crianças, convém aferir que os livros adequados nesta fase devem ter uma linguagem simples com começo, meio e fim. As imagens devem predominar sobre o texto. As personagens podem ser humanas, bichos, robôs, objectos, especificando sempre os traços de comportamento, como bom e mau, forte e fraco, feio e bonito. Histórias engraçadas, ou que o bem vença o mal atraem muito o leitor nesta fase.

3.2. Um Percurso com Obra Reconhecida

Se Manuel Rui, com a obra A Caixa (1977), é considerado o precursor da literatura infantil angolana devido ao facto de a sua citada obra constituir a primeira infantil no pós-independência, Gabriela Antunes é a promotora da ascensão literária infantil, pois dedicou-se, após a independência de Angola, à arte infantil por considerar que era uma necessidade da nação nascente. Para desenvolver esse género da literatura, liderou uma equipa de exímios escritores onde se pontificam Dario de Melo, Octaviano Correia, Rosalina Pombal, Maria Celestina Fernandes, Cremilda de Lima e Maria Eugénia Neto, tendo sido o trampolim de promoção o Suplemento Infantil do Jornal de Angola. Esses sete escritores foram, durante esse período áureo, os principais dinamizadores da literatura infanto-juvenil angolana, contando, pelo menos, uma obra de cada um deles na primeira colecção infantil, designada «11 Clássicos Infantis». São elas: Fábulas de Sanji, de António Jacinto, … E nas Florestas os Bichos Falaram, de Maria Eugénia Neto, Kibala, o Rei Leão (1983), de Gabriela Antunes, As Sete Vidas de um Gato, de Dario de Melo, A Velha Sanga, de Cremilda de Lima, O Círculo de Giz de Bombo, de Henrique Guerra, A Árvore dos Gingongos, de Maria Celestina Fernandes, O País das Mil Cores, de Octaviano Correia, Lutchila, de Rosalina Pombal, Duas Histórias, de Zaida Dáskalos, e A Viagem das Folhas de Caderno, de Maria João Chipalavela.

Nesse percurso glorioso, interrompido em Abril de 2004 com a sua morte aos 66 anos, a também bibliotecária Gabriela Antunes publicou um vasto acervo bibliográfico onde se destacam: A Águia, a Rola, as Galinhas e os 50 Lweis (1982), A Abelha e o Pássaro (1982), Luhuna, o Menino que não conhecia Flor-Viva (1983), O Castigo do Dragão Glutão (1983), O João e o Cão (1988), Estórias Velhas Roupa Nova (1988) e Crónicas Apressadas I (2003). Não há dúvidas de que a literatura infantil angolana teve o impulso nas décadas de 1980 e 1990, nas quais a então Secretaria do Estado da Cultura (SECULT), através do extinto INALD (Instituto Nacional do Livro e do Disco), teve papel preponderante na criação de políticas relevantes e consentâneas de incentivo ao livro, tendo como ponto mais saliente «O Jardim do Livro Infantil», uma feira anual que juntava crianças de todas as escolas de Luanda, em representação do País, no «Parque ex-Heróis de Chaves». Porém, o apogeu surgiu, na década de 2000, com a paz, na qual uma nova literatura infanto-juvenil atingiu o cimo da edição no País. Nesse prisma, um boom de publicações fez-se sentir, no qual enumeramos (exceptuando os 11 clássicos já referidos) os seguintes: A Missanga e o Sapupo, O Tambarino Dourado e A Kianda e o Branquinho do Fuxi, de Cremilda de Lima; Estórias do Leão Velho e Quitubo, de Dario de Melo; Fizeste Fogo à Viuvinha e A Amizade do Leão não se faz com Coração, de Octaviano Correia; Kambas para Sempre, União Arco-Íris e Os Padrinhos da Nazarena, de Maria Celestina Fernandes. Nesse quadrante de produtividade, há a salientar com a relevância merecida a produção literária de autores angolanos (O cubo amarelo, de Gabriela Antunes; Sunguilando: contos tradicionais angolanos, de Óscar Ribas; As Aventuras de Ngunga — considerada a obra-prima angolana no período colonial, de Pepetela; A Montanha do Sol, de Maria Eugénia Neto; O Menino de Olhos de Bimba, de Jorge Macedo; Ynari: a menina das cinco tranças, de Ondjaki; Quitubo, de Dario de Melo, e A Árvore dos Gingongos, de Maria Celestina Fernandes) que, com as obras: O Gato e o Escuro e O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto, fazem parte do leque de 10 artigos produzidos por académicos brasileiros constantes no livro «Ensaios sobre Literatura Infantil de Angola e Moçambique: entre fábulas e alegorias (2007)», organizado por Carmen Lúcia Tindó Secco, professora e pesquisadora das literaturas africanas de língua portuguesa. A partir do ano 2000, sobretudo após o calar das armas no País verificado com o Acordo de Paz do Luena, artistas consagrados, versados em prosa e poesia para adultos, começaram a interessar-se pelo mundo imaginativo e criativo das crianças. São os casos de José Eduardo Agualusa, Ondjaki (pseudónimo de Ndalu de Almeida) e Zetho Cunha Gonçalves, três escritores angolanos que produziram livros para a infância no mercado editorial brasileiro ao longo da década 2000 e cujas obras despertam o interesse constante pelo seu estudo por parte de pesquisadores e universidades brasileiras.

Por conseguinte, seis títulos desses escritores, nomeadamente O Filho do Vento (2006) e Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias (2012), de José Eduardo Agualusa; Ynari – a menina das cinco tranças (2010) e O Leão e o Coelho Saltitão (2009), de Ondjaki; e Debaixo do Arco-Íris não Passa Ninguém (2006) e A Vassoura do Ar Encantado (2012), de Zetho Cunha Gonçalves, foram reflectidos na dissertação sobre a inserção das literaturas africanas de língua portuguesa para a infância da Universidade Federal de Santa Catarina com o fim de destacar nestes textos as características comuns da estrutura de cada um deles (tema, enredo, personagens, aspectos linguísticos etc.), bem como o interesse desses escritores pela produção de uma literatura de recepção infantil e juvenil. Vale lembrar que Agualusa tem mais dois títulos para a infância: Estranhões & Bizarrocos: estórias para adormecer anjos (2000) — livro de estreia para a infância — e A Girafa que Comia Estrelas (2005). O mesmo acontece com Ondjaki, com os dois títulos: O Voo do Golfinho e A Bicicleta que tinha Bigodes.