LINGUISTA ANGOLANO ABORDA

A LÍNGUA PORTUGUESA E OS SEUS EQUÍVOCOS

O Director de Edição e Publicação da Imprensa Nacional-E.P., Hermenegildo Seca, proferiu, no dia 2 de Novembro, no Auditório do IMNE-Marista, uma aula magna de língua portuguesa no intuito de elevar os níveis de conhecimento sobre a língua que é a oficial de Angola, assim como os seus inúmeros equívocos. O académico e investigador da língua usada por 223 milhões de falantes em todo o mundo, constituindo-se na 9.ª língua mais falada a nível mundial (lingua.edu>pt-br), foi o orador do «Seminário de Capacitação Pedagógica para Professores de Língua Portuguesa dos I e II Ciclos do Ensino Secundário», cuja iniciativa suprema pertence a um grupo de professores e subscrita pela direcção daquele instituto de formação de professores adstrito à Igreja Católica na ânsia da aplicação do conhecimento e da sua partilha e construção, segundo confidenciou ao auditório, engalanado e com uma moldura humana digna de registo num feriado nacional, Faustino Domingos, Coordenador de Língua Portuguesa da entidade promotora, enaltecendo, com vénia e exaltação, a progressão intelectual e académica do prelector, «um filho da casa que dá cartas na docência», finalizando com uma frase profunda: «a aplicação do conhecimento é dos momentos mais sublimes da vida». Por conseguinte, uma língua é um instrumento crucial para a comunicação e a compreensão de culturas diferentes.

E a língua portuguesa é muito mais que uma língua, é uma cultura, sentenciou o apresentador. Posteriormente, entrou em cena o Especialista em Linguística Portuguesa que percorreu dois dos três momentos do certame (Perfil do Professor Moderno/ Modelo de Língua Portuguesa dos I e II Ciclos, e a Prática da Gramática Implícita e Explícita na Aula de Língua Portuguesa) de forma magistral, elucidando a plateia, composta maioritariamente por professores e candidatos a essa nobre profissão. Foi incisivo relativamente à Teoria da Escola Nova e à Teoria do Homem Novo, tendo afirmado, de forma categórica, que «formar seres pensantes é o grande objectivo da escola de hoje. Logo, a criança sabe falar e conhece a língua; precisa somente de munir-se de instrumentos para o conhecimento e a construção da cidadania». Outrossim, e no que tange ao Homem Novo, o orador afirmou com substância que «o papel do professor moderno é ajudar o aluno a aprender a língua para a construção da cidadania», dando os exemplos do artigo 26.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos para fundamentar os seus argumentos de razão. Em Angola, a primeira lei a ser conhecida é a Constituição da República de Angola (CRA), convidando os presentes ao seu contacto permanente. Para sustentar com maior relevância as suas teorias educacionais, o convidado especial fez menção aos quatro pilares da educação, apresentados na obra Educação: Um Tesouro a Descobrir (UNESCO, 1996), cujos traços sublimes se reflectem positivamente no perfil do professor, nomeadamente: a) Aprender a Conhecer, no qual o estudante deve munir-se de ferramentas para o conhecimento e o professor ajudá-lo na sua busca através das ferramentas, tornando-se necessário despir-se do equívoco de ver o professor como único detentor do conhecimento; b) Aprender a Fazer, no qual o professor auxilia o estudante a produzir, tem como foco desencorajá-lo a memorizar conceitos que nada ajudam na vida prática, devendo o ensino ser virado para a prática; c) Aprender a Conviver, em que, mais do que aprender a pôr as vírgulas e acentos (que também têm a sua importância), a forma de interacção verbal está uns pontos acima, ou seja, o ser que usa a língua deve aprender a conviver com a diferença; d) Aprender a Ser, o qual envolve o orgulho de ser o que somos: mais do que sermos luandenses, angolanos, professores, etc., devemos ser cidadãos. Logo, um professor deve saber legislação; não basta o domínio da língua. Na sua abordagem profunda sobre a língua: origem e sas conexões, o prelector debruçou-se demoradamente sobre os seus inúmeros equívocos, dispersando ao ambiente boas novas. «A língua é história, é direito, é cultura, é tudo», esclareceu, sintetizando as aventuras de Portugal ao mar. Numa interacção bem conseguida e fluída entre o palestrante e a plateia ávida de novos ingredientes académicos, o orador evocou que existem línguas naturais e línguas artificiais. Sendo assim, os falantes criam as línguas naturais, pelo que é um equívoco referir-se a Luís de Camões como detentor da língua portuguesa. «Línguas artificiais são criadas por um grupo de pessoas e são efémeras… morrem tempos depois!», precisou com um à vontade característico de quem domina o dossier. A discussão atinente aos equívocos da língua dominou cerca de 60% das cinco horas do seminário do IMNE-Marista, na qual o professor esteve à altura das encomendas. «Fomos formatados com inúmeros equívocos: a língua é manifestação cultural; ela é inata ao ser humano e esse é imperfeito». Portanto, para o responsável da DEP, a língua é dinâmica, é transformação, e urge ter adultos de mentes abertas para a sua reflexão e uso. Esclareceu que a ortografia não é a língua, é apenas um elemento imposto por decreto. O segundo momento teve uma vertente mais pedagógica, no qual o orador solicitou a intervenção de dois docentes de ambos os géneros para debruçarem sobre a Gramática Implícita e a Explícita. De seguida, elucidou a augusta assembleia que Gramática Implícita, também conhecida como Internalizada, ou seja, a gramática dominada pela generalidade dos falantes. Ao passo que a Gramática Explícita é aquela que agrupa as regras do uso ideal da língua conforme advogado pela grande maioria dos compêndios usados na escola. O Mestre, citando proeminentes linguistas (Marcos Bagno, William Labov, Ataliba de Castilho e outros), caracterizou a diferença entre as duas na relevância e no uso. Normalmente a Gramática Implícita pode ser vista como a legítima, e considerada dominante, a qual a criança e a pessoa não-escolarizada usam com predominância. Porém, o prelector apontou como outro equívoco, atendendo ao facto de que essa variante é originária das utras gramáticas, incluinda Explícita. Citou como exemplo claro o da criança de 3 ou 4 anos que, apesar de não frequentar a escola, utiliza a língua com mestria, construindo frases compreensíveis. Por conseguinte, a criança chega a esse estágio de crescimento comunicacional de maneira inconsciente, escutando e memorizando infinidades de vocábulos. Outrossim, e regressando aos equívocos da língua, o linguista aludiu ser um equívoco científico a associação da origem do português ao latim, referindo o galego como a essência. «Tudo só aconteceu por questões políticas. Para atenuar, fala-se em galaico-português, que não existe», concluiu o estudioso. Esmiuçando mais equívocos, o Director da DEP da organização gráfica centenária recordou o facto de, há muitos anos, referir-se à ausência de diálogo na nossa língua oficial sem o verbo. «Atentem ao seguinte diálogo, que contraria essa tese», solicitou o professor: «Falante A: Fixe? Falante B: Yá! Falante A: Família? Falante B: Boa! E a tua? Falante A: Também!…» Por outro lado, nas 3.ª e 4.ª Classes, os alunos passam a reflectir sobre essas regras gramaticais apreendidas de forma inconsciente. Aí o contacto com a Gramática Explícita, que é a explicitação dos métodos de funcionamento da língua. Para ele, a síntese gramatical é o método que se aconselha para o ensino da gramática explícita, consistindo em exemplos vivenciais dos alunos. A magna aula terminou com o prelector a considerar como «preguiça intelectual» a forma: introdução, desenvolvimento e conclusão (qualificando de cabeça, tronco e membros) de concepção e elaboração de um tema, tendo sugerido, como alternativa, a apresentação de tópicos (ou subtemas) para facilitar o processo de produção textual. A propósito, a interacção linguística entrelaçou a dimensão cultural, com um dueto formado por ex-estudantes do IMNE-Marista a degustar-nos, com magia, uma rapsódia com temas de Madúkila, Irmãos Almeida e Tchissica Arts.